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"A educação é cara? Experimentem a ignorância!"

Fernando Barriga: "A educação é cara? Experimentem a ignorância!"

Faz hoje 60 anos, mas quem recebe a prenda somos nós. No dia em que comemora o seu aniversário, Fernando Barriga, especialista em geologia, partilha com o Ciência Hoje um pouco da sua história profissional e pessoal. À semelhança de outros cientistas, este investigador está reformado mas ainda não parou.

Continua a levantar-se às 7hs para estar na Faculdade de Ciências de Lisboa (FCUL) às 9hs, onde "quase sempre" tem estudantes de pós-graduação que acompanha à sua espera; continua envolvido em vários projetos de investigação; e tem compromissos, enquanto representante de Portugal em várias comissões ligadas à investigação no mar - chegou recentemente do Hawai - , que o levam ao estrangeiro "com frequência".

Fora as viagens ‘de negócios', quando está de férias gosta de visitar "sítios novos e diferentes". Um dos elementos indispensáveis a levar nas viagens é a "enorme máquina fotográfica" para tirar "milhões de fotografias".

Tempo livre é algo que não lhe sobre, mas quando o tem dedica-se à fotografia, ao cinema, à leitura e à família numerosa e "engraçada", à qual se refere com carinho. Quando pensa na infância lembra-se dos seus sete irmãos e de ter "uma vida familiar rica e activa". A somar aos irmãos, tem ainda "muitos sobrinhos", dois filhos e vive com uma companheira.

Da química à mineralogia

Desde bem novo sempre soube que queria ser investigador e muito precocemente interessou-se pela Química devido aos livros que o pai lhe deu para ler até aos 12 anos. "Li centenas de livros e muitos deles eram biografias" de grandes personalidades, inclusive de cientistas. Nesta altura começou também a fazer experiências porque sempre foi "muito curioso" e estava sempre pronto a desmontar os aparelhos todos. "Gosto de saber como as coisas funcionam", afirma. No 8º ano de escolaridade começou a visitar a FCUL e tanto os professores como os alunos "achavam muita graça" ver ali "um miúdo tão interessado".

Apesar de gostar de Química, interessou-se pela mineralogia, o que fez com que se licenciasse em Geologia na FCUL. No entanto, transformou-se "realmente num geólogo" quando foi tirar o doutoramento para a Universidade de Western Ontário, no Canadá. Antes disso, escolheu um tema de tese de doutoramento que tivesse a ver com as necessidades do país e resolveu estudar as minas de Aljustrel. "A minha tese foi uma das primeiras que demonstrou que estes minérios se formaram no fundo do mar há centenas de milhões de anos", conta. Esta perspectiva de ligar os minérios do Alentejo aos processos do hidrotermalismo submarino iniciou no Canadá, até porque "o assunto estava a começar na altura".

Quatro anos depois de estar no Canadá, voltou a Portugal como professor auxiliar da FCUL. Nesta fase, envolveu-se muito no ensino e na formação de doutorandos. "Tive várias dúzias de alunos, cheguei a ter 20 pessoas a trabalhar comigo ao mesmo tempo e 40 horas de serviço". Foram uns tempos "duros", revela.

Para além de leccionar, sempre fez investigação no terreno. As missões no mar foram as que mais o marcaram pois participou em algumas das primeiras missões com submarinos. "Mergulhei mais de meia dúzia de vezes em submarinos tripulados e essas missões são inesquecíveis".

‘Pernas para andar'

‘Alfacinha de gema', sempre viveu em Lisboa mas gostava de "experimentar o Alentejo". Fora do País, via-se a morar no Norte de Itália por ser uma das zonas "mais civilizadas e bonitas" que conhece. No entanto, nunca quis ficar fora porque adquiriu a "noção aguda", na sua experiência no Canadá, que "em Portugal há falta de continuidade naquilo que vai acontecendo". Por isso, sempre tentou que esse não fosse o seu caso e criou um pequeno grupo de investigação com "pernas para andar".

O entusiasmo das pessoas pela ciência é algo que cativa este "bom comunicador". "Gosto muito de fazer uma conferência bem feita e de conseguir transmitir que a ciência é aquilo que nos distingue dos outros seres no planeta".

Um dos seus defeitos é ser "muito entusiasta", o que não parece mau. Mas, por ter ‘mais olhos que barriga' por vezes mete-se em coisas a mais do que pode dar conta. "Por achar que se eu não fizer, ninguém faz, acabo por querer fazer tudo", explica.

A terminar a conversa, Fernando Barriga cita uma das suas frases preferidas, que lhe chegou há muitos anos pelo sindicato dos professores: "Se pensam que a educação é cara, experimentem a ignorância". Uma ideia que "nunca é demais lembrar", afirma.

Ciência Hoje 29/09/2011 - Susana Lage (texto e fotos)

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