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Como é fácil fazer ciência no Brasil

Como é fácil fazer ciência no Brasil

Faz tempo que penso em relatar certas experiências e impressões sobre ser cientista no Brasil, de maneira a tornar públicos alguns absurdos e ajudar os(as) leitores(as) deste blogue a compreenderem melhor o universo de trabalho e os problemas que eu e colegas enfrentamos. Não tenho a pretensão de afirmar que o que relatarei nesta série seja regra no país ou replicável ao conjunto das universidades federais e dos colegas professores. (Além disso, falo de um lugar particular, o de professor e pesquisador no âmbito das ciências humanas.) Por outro lado, como, em conversas informais, frequentemente ouço experiências semelhantes - às vezes, até mais bizarras -, suspeito que não falo sozinho ou só de mim. Esta sensação foi reforçada pela atual greve, que tem como ponto da pauta de reivindicações a melhoria das condições de trabalho (horrorosas) a que estamos submetidos - eu, ao menos, estou. Começo com um caso concreto: um dos problemas que enfrento como editor de uma revista científica.

Avaliação - Há alguns anos, uma das principais tarefas acadêmicas a que me dedico é a edição da Recorde: Revista de História do Esporte (http://www.sport.ifcs.ufrj.br/recorde/home.asp). Embora pessoalmente eu discorde bastante das lógicas que orientam a avaliação da pós-graduação e da produção científica no Brasil, na medida em que a revista é editada por um coletivo de pesquisadores, sempre respeitei e trabalhei em prol de um dos objetivos editoriais: inseri-la em indexadores qualificados, para que seja lida, respeitada e atraente para bons artigos de bons pesquisadores.

Dentro desse espírito, nossa prioridade sempre foi buscar uma boa posição no Qualis - avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) - elaborado pela área de História. Na primeira vez que fomos qualificados, obtivemos a nota B3. Para os que desconhecem a escala, ela tem sete níveis válidos (em escala decrescente: A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5) e um equivalente a zero (C). Um B3 em 2009 (ou 2010, não lembro) ficou de bom tamanho para um periódico iniciante.

A avaliação - de todas as áreas, não apenas da História - deveria ser anual e regular, mas não é. Tem sido feita de forma errática nos últimos anos, o que, em si, já me parece um indício da precariedade (falência? inviabilidade? fragilidade?) desse processo classificatório. Como a avaliação não acontece todo ano, nos mantivemos como B3 por cerca de dois anos. No início de 2012, saiu novo resultado: continuamos como B3. Estranhamos a permanência neste estrato, pois, pelos próprios parâmetros divulgados em email da Associação Nacional de História (depois reproduzidos em documento disponível no site do Qualis) cumprimos todos os itens necessários para sermos B2.

Entramos em contato com a comissão e contestamos o resultado da avaliação. A princípio, recebemos a resposta de que as informações seriam levadas em conta na próxima avaliação.

Questionamos esse procedimento: se estamos apontando um possível erro, por que esperar um ano para que seja corrigido? Além disso, solicitamos a ficha de avaliação da revista, para sabermos que item necessário ao nível B2 não cumprimos, de maneira que pudéssemos trabalhar nele para aprimorá-la. Recebemos a mesma resposta. Insistimos. Recebemos outra resposta: de que o comitê não se reporta a editores de revista, mas a programas de pós-graduação. O PPGHC/UFRJ (Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro), ao qual a revista se vincula, solicitou a ficha de avaliação. Até onde sei, não recebeu resposta.

Documento público - Como dito antes, o documento (http://qualis.capes.gov.br/arquivos/avaliacao/webqualis/criterios2010_2012/Criterios_Qualis_2011_40.pdf) referente ao Qualis elaborado pela área de História foi publicado após a avaliação. (A maioria das informações já tinham sido divulgadas pela Anpuh, possibilitando nossa contestação antes mesmo de o documento ser disponibilizado no site da Capes.)

No item "Tendências observadas", que não integra a avaliação, mas aponta para onde as revistas da área estão indo, Recorde se enquadra em dois itens: "crescimento de revistas divulgadas online e das editadas exclusivamente online" e "surgimento de revistas especializadas". Ou seja: nossa iniciativa não é um ato isolado, mas condizente com o momento vivido pela área e pelo emergente subcampo da História do Esporte.

Cumprimos também a maioria das "Recomendações da Área", especialmente a última: "d) Serão avaliadas positivamente revistas especializadas que possam se constituir como referência para campos de investigação e redes de pesquisadores".

Sem falsa modéstia, afirmo que Recorde é um dos melhores exemplos deste item. Ela é a primeira revista de história do esporte da América Latina. Como resultado e evidência disso, oito dos nove números publicados contam com artigo em espanhol. Ao longo das nove edições, foram 16 artigos nesse idioma. Isso fora as contribuições em inglês e francês.

Avançando no documento, chega-se às exigências para ser classificado como B2. Como dito acima, considero que as cumprimos, mas não conseguimos ser ouvidos pela comissão. Talvez a explicação esteja nas "Considerações Finais". No item B, lê-se:

"Foram revisadas as notas dos 200 periódicos nos quais a área mais publicou no ano de 2012 (cerca de 70% dos artigos)."

O mais provável é que Recorde não tenha ficado entre as 200. Se entendi direito as entrelinhas do item, isto tem algumas implicações:

1) Se houve 1.814 periódicos em que foram publicados artigos, mas apenas 200 tiveram as notas revisadas, 1.614 não foram avaliados.

2) Um comitê formado para avaliar diz, num documento público e oficial divulgado pelo governo federal, que não avaliou as revistas em que estão 30% dos artigos da área. Algo como "não vou fazer uma parte grande do meu trabalho" - e pronto.

3) Trabalhamos para qualificar uma revista, mas nem nosso trabalho, nem a revista são avaliados. Para que trabalhamos?

4) Segundo divulgado recentemente pela Anpuh, a orientação geral da avaliação de periódicos foi manter a avaliação anterior. Ora, parece-me óbvia a impertinência desta opção, embora possa imaginar e compreender os motivos para tal. Não sei quantas pessoas compuseram a comissão, quanto receberam para executar a tarefa (se é que receberam algo), quanto tempo tiveram para executá-la etc., mas, dado o que conheço de outras experiências relativas à avaliação da pós-graduação e de pesquisa, imagino que as condições para realizar este trabalho - volumoso, complexo, repetitivo, cansativo e chato - devam ter sido muito ruins.

Como qualquer decisão de caráter conservador, a manutenção das notas de centenas de revistas beneficia quem já está bem e prejudica quem está mal. Recorde não está mal, mas a não subida para B2 implica menos autores interessados em submeter artigos a ela. Com menos artigos, fica mais difícil aliar quantidade e qualidade. Eis aqui um exemplo de efeito Tostines ("vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?") às avessas: a não qualificação no estrato adequado (B2) prejudica a revista, que, consequentemente, recebe menos artigos e tem mais dificuldades de se enquadrar no estrato correto (B2).

5) Para completar o cenário desanimador, o documento nada diz sobre a próxima avaliação. O que acontecerá com os periódicos não avaliados? Seguirão ignorados? Ficarão (para sempre? até quando?) com a mesma avaliação?

Isto apesar de o documento afirmar que: "A área tem procurado aperfeiçoar continuamente seu sistema de avaliação, adotando critérios mais qualitativos para os periódicos em estratos superiores." Mas, se os estratos inferiores sequer são avaliados, como é que se faz para chegar aos estratos superiores? Por quanto tempo se manterá esta profecia que se autorrealiza?

E assim, aos solavancos, a partir de trabalho provavelmente não (ou mal) remunerado e outras formas de gambiarra, avança a pesquisa no Brasil. Fica bonito pro governo federal anunciar que cresceu não sei quantos porcento o número de revistas e artigos científicos no Brasil. Lamentavelmente, é neste cenário que ocorre tal crescimento.

Em outra oportunidade, abordarei o processo de edição de revistas e o de avaliação dos artigos submetidos.

Jornal da Ciência - 12/07/2012

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