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Os russos também estiveram aqui

Os russos também estiveram aqui

Por Wagner Freire (para Brasil Energia)

Em fins de 1963, como geofísico-intérprete em Salvador, fui designado para um estágio de um mês no centro de processamento analógico de dados sísmicos no Rio de Janeiro, na sede do Departamento de Exploração da Petrobras, o chamado Play-back Center, operado por uma empresa estrangeira de geofísica. Leitor atento das publicações internacionais de geofísica, fiquei surpreso com o que considerei uma unidade ultrapassada em relação aos padrões da indústria, recomendando, num duro relatório, sua substituição e o maior envolvimento da Petrobras na atividade.

Pouco tempo depois, a empresa deu-me nova oportunidade de treinamento, por três meses, dessa vez em duas renomadas empresas de geofísica, a CGG, na França, e a Prakla, na Alemanha. Nessa ocasião, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o presidente da Petrobras, Marechal Ademar de Queiroz, que me convidou para acompanhá-lo no Congresso "Le Pétrole et la Mer", em Mônaco, em março de 1965.

Para mim foi uma inesquecível experiência presenciar a confrontação de tecnologias que se iniciavam num sistema sofisticado de digitalização de dados, na aquisição e processamento sísmico, ante o desafio de explorar uma nova província potencialmente petrolífera, em pleno boom de investimentos.

A primeira descoberta de óleo no Mar do Norte só ocorreu anos depois, com o campo de Ekofisk, pela Phillips, no Setor Norueguês, em 1969 - um ano depois da descoberta de Guaricema. Ao retornar, prosseguimos o discurso para mudança do clima de processamento na Petrobras. Num longo processo decisório, afinal foi providenciada a aquisição de uma central analógica, concluída em dezembro de 1967.

Foi sem dúvida a mais moderna central analógica de processamento fabricada e, provavelmente, a última produzida pela indústria. Nascia ultrapassada, mas serviu de base para treinamento de uma briosa equipe. Afinal, logo depois, no início de 1968, a Petrobras se lançava num importante programa de levantamentos sísmicos digitais na plataforma continental, cujos dados, porém, precisavam ser processados nos EUA.

Já na chefia da Geofísica, promovemos uma imediata mudança. Em dezembro de 1968, inaugurávamos uma moderna central de processamento digital: um computador IBM 360-44, ocupando todo um andar, com CPU de 360 kb de memória (!), provido de um acessório importante, um arrey-processor.

Entrávamos também na era digital. O episódio é destacado porque essa foi, certamente, a base da posição de destaque que a Petrobras sempre cultivou nessa área, acompanhando de perto os extraordinários desenvolvimentos da indústria, permitindo-lhe identificar os modelos que cada vez lhe dão mais segurança na exploração e explotação de novas reservas de petróleo.

O início dos anos 60 marca a transição do gerenciamento das atividades de exploração da Petrobras do geólogo Walter Link e seu staff para o progressivo comando dessas atividades e seu exercício por profissionais brasileiros, efetivamente consolidados no fim da década.

Foi por iniciativa de Link que a Petrobras criou o Curso de Geologia de Petróleo, com dois anos de duração e tempo integral, por acordo com a Universidade de Stanford, que cedeu seu vice-reitor, o geólogo Frederick Humphrey, para coordenar o curso, ministrado em Salvador por eminentes professores, provenientes de diversas universidades americanas.

Esse sistema substituiu a prática anterior de enviar engenheiros de minas para fazer cursos quase sempre under-graduate em determinadas universidades americanas. É singular também frisar que não havia no Brasil, até então, cursos de formação de geólogos nas universidades brasileiras.

Mas, nessa ocasião, por iniciativa do governo federal, foram criados, em cinco universidades, os primeiros cursos de graduação em geologia, dentro de um programa de alto nível, batizado de Cage. A primeira turma de geólogos da Petrobras formou-se em 1958, e a segunda, na qual me incluí, em 1959.

Após alguns anos, esses cursos foram descontinuados e substituídos por cursos de pós-graduação em geofísica, ao tempo em que começaram a ser admitidos na companhia os primeiros geólogos formados nas universidades brasileiras. Até meados dos anos 60 era ainda grande o número de geólogos e geofísicos estrangeiros na companhia.

Os relatórios técnicos e até mesmo a correspondência de rotina eram escritos em inglês. O início da década marca o debate, mais de natureza política que técnica, acusando Link de subavaliar o potencial petrolífero do país. Link era um geólogo indiscutivelmente competente e habituado aos padrões de gerenciamento das atividades de exploração nos EUA, então num boom de exploração e produção, com carta branca para aplicação de amplos recursos no programa exploratório.

Link lançou um agressivo programa de levantamentos geofísicos e perfurações exploratórias, contratou rapidamente um grande número de profissionais estrangeiros qualificados, o que, certamente, no clima atual de demanda/oferta desse tipo de mão-de-obra, dificilmente seria possível. Deu grande ênfase à exploração na Amazônia, e todo apoio às atividades no Recôncavo, em plena fase de crescimento da produção.

O encerramento de suas atividades na Petrobras foi acompanhado de um relatório - do qual participaram vários geólogos brasileiros -, elaborado num clima pessimista, decorrente dos resultados frustrantes na Amazônia e eventos mais recentes, como resultados negativos na Bacia de Sergipe.

Pouco depois, em 1963, era descoberto o campo de Carmópolis nessa bacia, locação do geofísico Moisés Bentes, que mudou por completo esse clima com relação às bacias cretáceas terrestres. A primeira descoberta significativa de óleo na Amazônia, entretanto - Urucu, em 1987 -, levou 26 anos para ocorrer e isso se deveu sobretudo aos avanços tecnológicos da sísmica, obviamente inexistentes naquela época.

A recomendação básica de Link - é melhor ir para a plataforma continental brasileira e para o exterior -, foi ouvida com desdém, mas foi, afinal, o que a Petrobras acabou fazendo, anos depois. Link foi substituído em 1961 por um paleontólogo brasileiro, seu assistente, Waldemar Lange, e, no ano seguinte, pelo eminente geólogo brasileiro Pedro de Moura, portador da bandeira de repúdio ao chamado Relatório Link.

Nos anos seguintes as atividades se concentraram mais nas bacias do Recôncavo e Sergipe-Alagoas. Em 1963, os russos se ofereceram para avaliar o potencial petrolífero brasileiro, oferta aceita com entusiasmo pela esquerda e com atenta curiosidade pelos técnicos. A missão era chefiada pelo geólogo Tagiv e o engenheiro de produção Bakirov.

Bastante familiarizado com Recôncavo, eu me agreguei ao grupo com toda dedicação. A Amazônia contou com a colaboração do geólogo Carlos Walter Campos. A missão levou dois meses no Brasil. Chegou-se, assim, ao "Relatório dos Russos", em contraponto ao Relatório Link. No fundo, os russos não tinham experiência offshore, e a tecnologia corrente em sísmica era mais pobre que a disponível no mercado.

O quadro que pintaram não era muito diferente do recomendado no Relatório Link. Apenas encorajaram maior incremento das atividades exploratórias em todas as bacias sedimentares, e não deixaram de ter razão. Um incidente inusitado ocorreu em março de 1964, envolvendo Pedro de Moura, um geofísico estrangeiro e o sindicato. O sindicato e o geofísico se aliaram para afastar Moura, sob acusação de más práticas na utilização dos métodos geofísicos (!).

O sindicato nomeou uma "comissão" para apreciar o caso. Fui chamado para depor e o fiz com veemência, mostrando que não havia irregularidades. Os resultados foram levados ao presidente, general Osvino Alves: "Não temos bases técnicas para afastá-lo". Dias depois, o afastado foi o general. No início dos anos 60, praticamente a única província petrolífera era o Recôncavo. Carmópolis, descoberto em 1963, foi a primeira descoberta significativa fora do Recôncavo.

Mas, mesmo no fim dos anos 60, não se havia progredido muito. A produção continuava limitada a essas bacias e não se tinha qualquer esperança de reverter o quadro. Ao terminar a década, procurou-se intensificar os trabalhos na Bacia de Barreirinhas, no Maranhão, e retomaram-se os trabalhos na Amazônia, com equipe sísmica, mais de caráter experimental.

Não se falava, o que é surpreendente, na parte terrestre da Bacia Potiguar, onde o petróleo, anos mais tarde, foi descoberto primeiro offshore. Assim, no fim da década, só se vislumbrava alguma alternativa importante na plataforma continental. Em fins de 1967, Carlos Walter assumiu a chefia da Exploração e convidou-me para a chefia da Geofísica.

Em 1968, foram iniciados os trabalhos sistemáticos de exploração na plataforma continental, com a realização dos primeiros trabalhos geofísicos com as novas tecnologias de levantamentos e o registro digital. A primeira concorrência para esses trabalhos chamou a atenção da Western Geophysical, que não estava presente no Brasil. Seu VP, discutindo o contrato (imaginem: 6 mil km de linhas sísmicas, com opção de cancelar o contrato ao fim de 3 mil km, caso a qualidade não fosse satisfatória!), pensou em voz alta: "Essa companhia fará 6 mil, 12 mil, 24 mil km e muito mais; darei um preço baixo e ganharei o contrato". Ele tinha razão. Mas as coisas não foram tão fáceis.

Encarregamos a equipe de começar com uma linha experimental na Foz do Amazonas, antes de se dirigir para o sul. Não deu muito certo. O sistema de localização do levantamento - shoran (baseado em sinal de rádio de três estações terrestres) -, que funcionava muito bem no Golfo do México e no Mar do Norte, não funcionou lá devido à imensa massa de água doce do Rio Amazonas.

Logo espalharam a notícia: "Os americanos não querem que a Petrobras descubra óleo no Brasil". Claro que depois a questão foi superada. Seja como for, os trabalhos suportaram a primeira perfuração offshore do Espírito Santo, junto a um domo de sal, que resultou seco. A segunda perfuração exploratória offshore deu-se em Sergipe, em fins de 1968, baseada numa perspicaz interpretação de dados sísmicos anteriores do eminente geofísico Décio Bisol. Esse evento foi um marco significativo da exploração no Brasil.

Com o petróleo a pouco mais de US$ 2 por barril, a descoberta, certamente, não era comercial. O presidente da Petrobras, Ernesto Geisel, entretanto, determinou o desenvolvimento do campo por volta de 1970, "para que se ganhasse experiência nesse tipo de projeto". O campo entrou em produção dois anos depois, após o "primeiro choque do petróleo", já com a comercialidade garantida. Nas décadas seguintes houve a ida para o exterior, a descoberta de Garoupa, Majnoon e Nah Umr, a implantação e suspensão dos contratos de risco, a descoberta de Marlim, o desenvolvimento de tecnologias de águas profundas, a descoberta de Urucu, a entrada em Magnus e, por fim, a abertura do monopólio da Petrobras, que permitiu à empresa qualificar-se como grande player do mercado.

A cultura de familiarização com as operações em mercados competitivos começa a se difundir e a Petrobras deve se empenhar para que essa oportunidade se consolide no Brasil, em seu próprio benefício e na busca da proteção ao consumidor. Tem, assim, enormes responsabilidades. Deve sempre lembrar suas origens e manter sua visão para o futuro, mirando no bem estar do país e de seu povo e em suas responsabilidades nos países onde atua.

A atividade de E&P, a mais rentável da indústria de petróleo, é extremamente desafiante, pela singularidade dos riscos exploratórios a que está sujeita. Falamos de Mônaco no início deste artigo. Faz lembrar que um dos processos de determinação da prospectividade de uma área passa por um cálculo probabilístico batizado de Montecarlo, numa alusão ao cassino de jogos de Mônaco.

A diferença para os jogos de azar é que o fator de sucesso é maior do que o simples azar, e esse fator depende de nossa habilidade de alterar esse azar. E isso é baseado no conhecimento científico. A área de E&P tem uma interface muito grande com a ciência. É isto que torna o negócio muito atraente e estimulante.

É mais arte que negócio e está na cabeça dos exploradores e na sua habilidade de agregar e desenvolver a tecnologia para a materialização de suas idéias. Vamos esperar que elas se desenvolvam cada vez mais na cabeça dos brasileiros.

 
Wagner Freire é engenheiro e fundador da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo e Gás. Fundador e ex-presidente da Silver Marlin Oil & Gas e da Starfish Oil & Gas. Atuou na Petrobras de 1958 a 1992, onde foi presidente da Petrobras America (1991/92), diretor de E&P e presidente da Braspetro (1985/90), gerente-adjunto dos Contratos-de-Risco (1977/81), chefe da Geofísica - Departamento de Exploração (1968/76), chefe de Geofísica Sergipe/Alagoas (1965/66) e geólogo de superfície no Recôncavo (1960).


 

 


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