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O professor Osvair Vidal Trevisan (Unicamp) foi premiado na categoria “Personalidade Inovação do Ano” do Prêmio ANP de Inovação Tecnológica 2016 por sua contribuição à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico e à inovação no setor energético brasileiro. Com um extenso currículo na área de tecnologia (ver minicurrículo no final da entrevista), é atualmente professor titular da Unicamp. Em entrevista ao Boletim ANP Petróleo e P&D, ele fala brevemente sobre alguns projetos de petróleo e gás natural que estão sendo desenvolvidos na universidade, e disserta sobre alguns dos desafios enfrentados pela indústria petrolífera brasileira. Dentre eles, está a necessidade de aproximação universidade-indústria para a promoção da inovação, a importância de se reduzir os riscos iniciais das iniciativas empresariais e a contribuição das startups para o avanço técnico do setor.

unicamp osvair trevisanComo foi receber o reconhecimento e a homenagem do Prêmio ANP de Inovação Tecnológica 2016?

Fiquei primeiro surpreendido com a notícia. Não trabalhamos na expectativa de sermos homenageados e também não há uma cultura de premiação entre nós brasileiros. Em seguida, fiquei muito feliz com a homenagem. É um júbilo ser reconhecido pelo trabalho.

Quais os principais projetos que vêm sendo desenvolvidos na Unicamp e como podem contribuir para o desenvolvimento tecnológico no Brasil?

Vários são os projetos em desenvolvimento na Unicamp na área de petróleo e gás. Todos eles muito alinhados com a necessidade da indústria, graças principalmente às diretrizes implantadas pela legislação e vigentes há alguns anos no setor. No segmento de exploração e produção (E&P) temos projetos de desenvolvimento de algoritmos novos para processamento de sinais sísmicos; de modelos multifísicos para controle e estabilidade de poços, para aplicação também no fraturamento hidráulico; e de modelos que incorporam técnicas de petrofísica especial à caracterização de reservatórios carbonáticos. Temos toda uma linha de projetos em modelagem e simulação de reservatórios, voltados ao desenvolvimento de técnicas para o gerenciamento de reservatórios desde a fase de descoberta até o abandono do campo. Temos projetos focados em novas tecnologias de recuperação melhorada, aplicada a reservatórios carbonáticos, envolvendo a injeção de água com composição química projetada, a injeção de CO2 e água, e a injeção de polímeros. Há projetos com foco no desenvolvimento de campos de óleo pesado, sejam voltados a técnicas de recuperação melhorada, como a injeção de polímeros e álcalis, sejam voltados ao desenvolvimento de modelos para o escoamento em tubulações e bombas, abordando os desafios da precipitação de asfaltenos e parafinas, da formação de emulsões com água, do bombeamento multifásico dos fluidos produzidos. É longa a lista dos projetos e estimulante a riqueza dos tópicos de que tratam. Todos, sem exceção, genuinamente ligados aos atuais e presentes desafios enfrentados pela indústria brasileira.

No Brasil, em geral, ainda há uma desconexão entre a pesquisa realizada na academia e a inovação aplicada na indústria. No entanto, somos um País com grande potencial de P,D&I, com um conjunto de universidades altamente qualificadas – um ambiente fértil para desenvolvimento de projetos inovadores. De que maneira as universidades e institutos de ciência e tecnologia podem se aproximar da indústria e colaborar mais efetivamente para promover a inovação no País?

Concordo com a afirmação de que há ainda uma desconexão entre a pesquisa da academia e a aplicação na indústria, desde que referida, como na pergunta, em termos gerais. Há que se entender este aspecto dentro do contexto histórico do desenvolvimento da indústria no País, que não ocorreu de forma autóctone. E da história da implantação das nossas universidades e de suas motivações, que rara e fracamente incorporavam o desenvolvimento tecnológico. Felizmente, esta característica de desconexão tem mudado e continua mudando. E o setor de petróleo e gás tem sido um grande líder e exemplo nessa mudança. A lei do Petróleo foi um grande marco nesta direção, com as consequentes criação do CTPetro e fundos setoriais. A continuidade e a robustez trazidas pela ANP nos dispositivos dos contratos de concessão e partilha consolidaram a diretriz para o setor de petróleo e gás. Houve uma mudança de qualidade no âmbito da pesquisa e do desenvolvimento nas universidades brasileiras. Hoje, temos laboratórios e recursos humanos de nível internacional na área, e todos voltados a atender as necessidades da indústria do setor, o que era apenas um sonho há poucas décadas atrás. Há muito ainda por conquistar, mas o caminho está mapeado.

A engenharia básica tem sido identificada como importante gargalo para o desenvolvimento da indústria brasileira de petróleo e gás natural. Além disso, muitos argumentam que falta mão de obra qualificada para o setor. Como o senhor vê esta questão?

O desenvolvimento industrial em qualquer setor é questão bastante complexa. Envolve aspectos de caráter econômico, sociais e culturais. Demanda a ação de vários agentes de forma minimamente planejada e ajustada entre eles por um prazo de anos ou décadas, com possíveis correções de rota ao longo do curso. A engenharia básica é sem duvida um elo importante na cadeia de execução de projetos. E pode ser muito útil na especificação da demanda de serviços e suprimentos nos projetos que impulsionem a indústria em desenvolvimento. Também, recursos humanos qualificados são essenciais neste desenvolvimento, e um dos mais importantes. Mas, ambos são apenas elementos que devem ser considerados dentro de um programa mais amplo de redução do risco da iniciativa empresarial nos períodos iniciais. Reconheço que isto é mais fácil falar do que fazer, e o Brasil já teve algumas tentativas frustradas neste quesito. Cabe rever o que não deu certo e corrigir.

Quais os principais desafios, na atualidade, para as empresas fornecedoras do setor de petróleo e gás no Brasil?

Falando de forma abrangente, os principais desafios na atualidade são os mesmos de sempre, só que agravados por uma conjuntura desfavorável. E os de sempre são ter uma demanda para os seus produtos e serviços minimamente assegurada para o retorno do investimento e, por outro lado, reduzir custos de forma a ser competitivo com preços internacionais.

Embora os indicadores de conteúdo local no fornecimento de bens e serviços à indústria do petróleo e gás tenham melhorado nos últimos anos, há um consenso de que as empresas brasileiras ainda têm uma participação muito pequena quando se trata de fornecer produtos e serviços intensivos em tecnologia. Como a universidade pode auxiliar no estabelecimento de focos para a capacitação tecnológica de empresas nacionais no setor energético? E o que se pode esperar das startups e spinoffs, nascidas em incubadoras de empresas das universidades?

As universidades são uma fonte primordial de recursos humanos qualificados e assim propiciam um entorno natural para o nascimento de empresas fornecedoras de produtos e serviços de maior conteúdo técnico. A existência de berços de empresas ao redor de universidades é fato observável em todos os países desenvolvidos. O mesmo vem sendo tentado entre nós, com resultados ainda pequenos, mas significativos e promissores. No setor de energia, como também nos demais setores, há que se persistir em fomentar essas iniciativas até que o empreendedorismo venha a se estabelecer como uma opção aos alunos da universidade. Isso implica numa mudança cultural, que normalmente leva tempo pra ser alcançada. O aluno hoje ainda entra e permanece no seu curso sonhando vir a ser um empregado de uma grande corporação ou, o que cresceu nos últimos anos, passar num concurso e se tornar um bem estabelecido funcionário publico. Penso que as universidades poderiam introduzir em seus currículos um conteúdo mínimo de empreendedorismo. As empresas juniores são uma boa iniciativa e funcionam bem como um laboratório, mas falta uma educação mais estruturada sobre o tema. Não é um caminho fácil o de uma startup na área de petróleo e gás. O setor é um exemplo clássico de intensivo em capital, por isso a entrada no negocio principal ser muito restrita e o número de operadores ser relativamente pequeno. No setor de suprimentos e serviços as oportunidades são mais disseminadas, mas como o número de clientes é pequeno, os riscos são mais elevados que em outros ramos da atividade industrial. O que compensa são os prêmios, que são mais elevados, mas o empreendedor tem um desafio adicional que é o de saber gerenciar os riscos. De resto, a contribuição das startups para o avanço técnico do setor pode ser grande, pela agilidade que podem ter as pequenas empresas em introduzir conceitos novos ou mesmo mudanças advindas de avanços científicos a insumos e processos em uso corrente.

Em sua opinião, o setor de energia no Brasil está em um estágio avançado? E o planejamento energético?

O Brasil é reconhecido por ter um bom mix de fontes primárias de energia. Isto, por si, já é um diferencial de vantagem para o País. O conhecimento energético avançou bastante nas ultimas décadas e possuímos hoje uma razoável base de dados. O mesmo não se pode dizer da utilização das ações do planejamento. A regulação deveria ter um papel mais relevante do que a intervenção de governos nesta atividade econômica que é de longo prazo e alto investimento. O resultado é que temos muitos sobressaltos provocados por desencontros entre a oferta e a demanda.

Osvair Vidal Trevisan é engenheiro mecânico-aeronáutico pelo Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), engenheiro mecânico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre e doutor em Engenharia Mecânica pela Unicamp e pós-doutorado em Engenharia de Petróleo pela Universidade do Texas. Há 30 anos atua em ensino, pesquisa e prestação de serviços em engenharia de reservatórios. Atualmente é professor titular da Unicamp. Suas publicações técnicas somam mais de 150, destacando-se um capítulo de livro internacional, 23 artigos em revistas e 104 trabalhos completos em congressos internacionais. Tem 2 patentes registradas. Foi superintendente de Exploração da ANP de 1998 a 2003 e diretor do Centro de Estudos de Petróleo (Cepetro/Unicamp) de 2007 a 2014.

Boletim ANP Petróleo e P&D - Edição nº 35 - julho/2016

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