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Os geólogos e engenheiros da Petrobras assistiam apreensivos à movimentação dos funcionários da empresa americana Zapata Drilling Company, responsáveis pela operação da plataforma Vinegaroon, arrendada pela companhia brasileira. Era setembro de 1968 e o poço 1-SES-1A-SE, a cerca de dez quilômetros do litoral de Sergipe, ameaçara entrar em blow-out, como é chamado o descontrole de pressão que faz o petróleo jorrar para o alto, gerando risco de incêndio ou explosão em casos extremos. A primeira tentativa de fechamento de válvula para debelar o blow-out do poço, perfurado a 1.332 metros de profundidade, havia falhado.petrobras-paulo-araripe

Sujos de óleo: Equipe da Petrobras em plataforma de Sergipe, em 1968: Paulo Araripe (à esquerda), Delly Oliveira, Antenor Muricy e Hélio Falcão. (BANCO DE IMAGENS PETROBRAS)

 

Coube a um funcionário da Zapata, um texano de chapéu de cowboy chamado Raymond, assumir o controle e tomar as providências para impedir o pior, ao fechar a chamada "gaveta cega". Foi então que se deu o que as pessoas embarcadas naquele dia relembram como um milagre. O geólogo Paulo Araripe diz que em meio à lama que subia pela coluna de perfuração surgiu um óleo escuro, gelado e fino. E o Brasil encontrava, pela primeira vez, petróleo em mar. Foi o início de uma saga de exploração que, décadas mais tarde, levaria a empresa à descoberta do pré-sal.

— Foi um milagre porque estávamos num poço pioneiro, em área pioneira, sem a quantidade de dados geológicos que se tem hoje. As chances de sucesso pareciam pequenas — lembra Araripe. — Para nós, geólogos, aquilo era uma maravilha. Para os técnicos de perfuração, era um problema. Não é normal que o óleo saia na etapa de exploração daquele jeito. Foi um acidente e se correu um risco naquele dia.

'Campo subcomercial'

A descoberta de petróleo no que viria a se chamar Campo de Guaricema, o primeiro a ser batizado com nome de peixe pela Petrobras, confirmava o que geólogos apenas supunham: existia petróleo em mar no Brasil. Em junho de 1968, uma primeira tentativa de perfuração no Espírito Santo fora malsucedida, com o poço se revelando seco. Mas a tendência de exploração em mar pelo mundo — como no Golfo do México e no Mar do Norte — tornava estratégica aquela empreitada.

Os funcionários embarcados na Vinegaroon — uma plataforma antiga, construída 11 anos antes, que pertencia à empresa do futuro presidente George W. Bush — correram naquele dia em busca de baldes, vasilhas e frascos para coletar o óleo que caía na chamada peneira, onde a lama que sobe da coluna de perfuração é despejada e separada. Temiam que o óleo não voltasse a sair.

— Poucos ali tinham subido em uma plataforma de petróleo antes. A Petrobras havia criado pouco antes o Setor Especial de Exploração da Plataforma Continental (Seplal), uma área independente que reunia profissionais de terra de diversas regiões do país — relembra Delly Oliveira, um dos ex-engenheiros da Petrobras.

A primeira descoberta em mar foi ameaçada, no entanto, por uma possível falha de avaliação de Guaricema, que indicava que a descoberta era "sub-comercial", ou seja, não valeria a pena produzir, diz Guilherme Estrella, ex-diretor da companhia. Na história que há décadas é transmitida nos corredores da estatal, o problema teria sido levado, em 1970, ao general-presidente da companhia Ernesto Geisel, futuro presidente da República. Alertado que o poço "produziria pouco e depois morreria", Geisel teria dito: "Vamos produzir assim mesmo, é simbólico para o Brasil".

Quarenta e cinco anos após a descoberta, a Petrobras continua produzindo óleo no Campo de Guaricema.

Pescaria e sandália a bordo

O geólogo Antenor Muricy lembra que a descoberta se deu a 34,5 metros de lâmina d'água (distância entre a plataforma e o fundo do mar). Na década de 1970 a Petrobras iniciou as descobertas da Bacia de Campos, à lâmina de 300 metros, já com sua plataforma própria, a P-1, construída no estaleiro Mauá, em Niterói. Na década seguinte, a profundidade passou a 500 metros e, nos anos 1990, a 1.500 metros. No pré-sal, são 2 mil metros de lâmina, mais 5 mil de perfuração.

— As diferenças tecnológicas se faziam sentir mais na limitação de operar em maiores lâminas de água e na eficiência do avanço pela broca, fatores hoje em dia bem mais evoluídos.

Sem a tecnologia atual, a exploração de petróleo em mar é relembrada como uma espécie de aventura. A bordo da unidade, não havia TV ou atividades de lazer, além de um livro, jogo de cartas ou bate papo. Sem as exigências atuais de segurança, profissionais podiam circular em parte da plataforma de sandálias, bermudas, sem capacetes. Naquela época era permitido pescar em cima da plataforma: a 15 metros de altura foram pescadas garoupas de mais de 20 quilos e mesmo tubarões.

— Nas sondas hoje é outro mundo, com TV a cabo, campo de futebol de salão. Antes, nem rádio funcionava bem — afirma Campos. — Teve sorte na descoberta, mas ela acompanha os bons.

O Globo - 29/09/2013 - Bruno Villas Bôas

 

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