Submit to FacebookSubmit to Google PlusSubmit to TwitterSubmit to LinkedIn

Orville Derby

Orville Adelbert Derby - O pai da Geologia do Brasil

 

No dia 23 de julho de 2001, na sede da Academia Brasileira de Ciências, em solenidade organizada e promovida conjuntamente pela academia, pelo Departamento Nacional da Produção Mineral - DNPM e pelo Serviço Geológico do Brasil - CPRM, comemorou-se o sesquicentenário do nascimento de Orville Adelbert Derby (1851-1915), notável geólogo americano, naturalizado brasileiro, cuja vida foi inteiramente dedicada à geologia do Brasil.

Segundo importante relato de Alpheu Diniz Gonsalves (1952), Orville A. Derby, o terceiro filho de Jonhn C. Derby e de Malvina A. Lindsay Derby, cresceu nas proximidades de Kelloggsville, sua cidade natal, em uma fazenda localizada na região de Finger Lakes, condado de Cayuga, estado de Nova York, cerca de 16 milhas a sudeste de Auburn.

Em 1869, aos 17 anos, Orville Derby ingressou na Universidade de Cornell, fundada em 1865 na cidade de Ithaca, sede do condado de Tompkins, onde seu grande interesse pela geologia constituiu motivo para que Charles Frederic Hartt (1840-1878), seu professor de geologia e geografia, o convidasse para acompanhá-lo em sua viagem ao Brasil, realizada no verão de 1870.

Nesta primeira viagem da Expedição Morgan, dirigida por Hartt, ainda como estudante, Derby esteve no estado de Pernambuco, ocasião em que, na companhia do naturalista DeBorden Wilmont, organizou uma importante coleção de fósseis da formação Maria Farinha, suplantando tudo aquilo que já se tinha feito neste sentido até então. No verão de 1871, na segunda viagem da Expedição Morgan, outra vez acompanhando Hartt, Derby retornou ao Brasil, desta vez para explorar o vale do Rio Amazonas. Nessa ocasião, realizou no baixo curso do Rio Tapajós uma importante coleta de fósseis carboníferos nos cálcários da formação Itaituba.

Entre 1871 e 1873, Derby deu continuidade aos seus estudos na Universidade de Cornell, onde se graduou em 1873. Nesta mesma universidade, Derby terminou seu doutorado em junho de 1874 e, nesse mesmo ano, sua tese "On the Carboniferous Braquiopoda of Itaituba, Rio Tapajós" foi publicada no Bulletin of Cornell University, Ithaca (vol. 1, nº 2).

Essa foi a primeira publicação de Derby sobre a geologia do Brasil. Segundo Alpheu Diniz, essa obra se destaca não só pelo valor da publicação em si, mas também pelo amor devotado à ciência que Derby muito bem demonstrou nesse trabalho, considerando as morosas e tediosas técnicas de dissolução que ele teve que empregar para separar e preparar os fósseis dos calcários silicificados da formação Itaituba, tarefa essa que certamente desanimaria a maioria dos jovens da sua idade.

O importante legado que Derby deixou no Brasil é evidenciado e reconhecido não só por importantes estudos geológicos e paleontológicos que ele aqui realizou desde sua juventude, cerca de 173 trabalhos (Alpheu Diniz op. cit), mas também pela valiosa contribuição que ele prestou na organização e construção de importantes entidades técnico-científicas brasileiras.

Derby no Brasil Imperial (1875 - 1877)

A Comissão Geológica do Império foi criada no final de 1874 com o objetivo de construir um mapa geológico do Brasil. Sua organização foi confiada ao seu idealizador, Charles Frederic Hartt, que teve como assistentes Richard Rathburn; John Casper Branner; Orville A. Derby e dois engenheiros brasileiros, Francisco José de Freitas e Elias Fausto Pacheco Jordão (1849-1901), este último o primeiro brasileiro a estudar Engenharia Civil na Universidade de Cornell, onde se doutorou em 1874, no mesmo ano do doutoramento de Orville Derby.

"As comissões geográficas e geológicas criadas nessa época fizeram trabalhos exemplares de investigação. A Comissão Geológica do Império (1875-1877), sob a direção do mesmo Hartt, conseguiu esclarecer em seus traços gerais a estrutura geológica brasileira, além de recolher cerca de 500 mil amostras de minerais. A despeito do seu êxito, a comissão foi desativada, em nome de uma duvidosa economia. Essa tem sido uma constante nos países subdesenvolvidos - sacrificar a ciência e a pesquisa tecnológica em favor de empreendimentos supostamente mais rentáveis, sob a ótica do imediatismo. Mesmo havendo na época, em escala mundial, umboom de investigação geológica estimulada pela procura de matéria-prima para as indústrias químicas e para a petroquímica”.

Museu Nacional (1879 - 1886)

No estado de São Paulo, Derby trabalhou no período de 1886 a 1904. À convite do governo da província de São Paulo, organizou a Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, criada pela Lei Provincial nº9, de 27 de março de 1886, hoje Instituto Geológico de São Paulo.

A orientação que Derby adotou na organização e construção da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo evidencia não só a visão avançada e bastante atual de Derby sobre a utilidade social da ciência, mas também as grandes dificuldades que os estudos científicos sofrem em relação a interesses econômicos quase sempre imediatistas. Esse conflito de interesses, ainda bastante presente em nossa atual realidade, parece ter sido o maior problema que Derby encontrou no país que escolheu como pátria.

Segue o texto da orientação: "A proposta de seu primeiro diretor, o geólogo Orville Adelbert Derby, era de uma visão integrada da natureza, através de geologia, geografia, botânica, zoologia, climatologia, etnografia etc. Essa linha de trabalho, que pode ser qualificada de naturalista, durou até 1905, substituída com a implantação da exploração dos recursos naturais, com vistas a acompanhar e auxiliar o desenvolvimento do capitalismo. A Comissão Geográfica e Geológica, como tal, permaneceu até 1931, destacando-se como produtos de sua atuação a realização de cartas geológicas, geográficas e topográficas do estado; os primeiros levantamentos de nossa fauna e flora; pesquisas com ênfase ao petróleo e à apatita; entre outros".

Derby e a ciência no Brasil

Ainda em relação ao aspecto político acima enfatizado, parece-nos que Derby, ao estabelecer os rumos de suas ações científicas na direção da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo e, como veremos mais adiante, também na direção do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, já tinha plena consciência da situação de confronto que iria enfrentar e que deve realmente ter enfrentado durante sua permanência na direção daquela instituição governamental. Esta percepção ganha respaldo e vida quando se reflete um pouco sobre as opiniões que Derby tinha a respeito do estado da ciência no Brasil, anteriormente publicadas na revista Science, em 1883. Pela importância que essas opiniões de Derby assumem no entendimento das dificuldades dos homens que lutaram no passado e daqueles que ainda lutam pela manutenção e crescimento da pesquisa científica no Brasil, transcrevemos a seguir as preciosas considerações de Pereira da Silva (1998) a esse respeito:

"Em 1876, o cientista norte-americano Orville A. Derby (1851-1915), que viera para o Brasil a convite para trabalhar na recém-criada Comissão Geológica do Império, trabalhara no Museu Nacional. Na década de 1870, ele enviara para a revista Science um artigo no qual retratara fielmente o estado da ciência no Brasil da época. Naquele artigo, publicado sem o nome do autor, ele apontara algumas características que atualmente marcam a vida científica brasileira. Ele escrevera, dentre outras coisas:

'Os últimos dez ou quinze anos testemunharam um acentuado despertar do Brasil para a importância da pesquisa científica e a inauguração do que pode ser chamado com justiça de um novo movimento, do qual - pelo que sabemos - nenhuma divulgação foi até agora feita para o mundo exterior; enquanto os próprios brasileiros, em sua maioria, talvez ainda desconheçam a importância e a promessa da atividade científica desenvolvida em seu meio por um pequeno grupo de trabalhadores dedicados. [...] Os brasileiros, com poucas e honrosas exceções, se satisfazem em receber de segunda mão os conhecimentos da história natural de seu próprio país e raramente se empenham por conta própria para suplementar e corrigir o trabalho dos naturalistas estrangeiros, em grande parte necessariamente incompleto e incorreto.

O governo, até recentemente, também não assegurou ajuda bem dirigida e regular para as investigações científicas; embora tenha mantido por muitos anos, com despesa considerável, departamentos científicos em todas as instituições superiores do saber e em estabelecimentos como o Observatório Nacional e o Museu Nacional. [...] Devido à má organização ou ao apoio insuficiente, os resultados científicos de todos esses esforços foram, contudo, de pouco valor. [...] Por longo período, o que passava por ciência no Brasil era caracterizado por uma quase total ausência de investigação; e, embora houvesse muitos nomes com uma reputação local e mesmo nacional, como professores ou escritores de assuntos científicos, era difícil encontrar qualquer contribuição sólida tanto no campo das ciências físicas como no das ciências naturais. Hoje ainda há muitas reputações que não têm como base um trabalho original de mérito' (O. A. Derby in, "O Estado da Ciência no Brasil", Science, vol. 1, nº 8, 1883, pp. 214 -221).

Passos de Derby em São Paulo

Na sua gestão frente aos destinos da Comissão Geográfica e Geológica no Estado de São Paulo, as atividades de Orville Derby foram marcadas por importantes ações e acontecimentos:

  • 1896 - A criação do IAG de São Paulo. O Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade do Estado de São Paulo originou-se na Comissão Geográfica e Geológica do Estado do São Paulo, criada pela Lei Provincial nº9, de 27 de março de 1886, chefiada pelo geólogo americano Orville A. Derby. Fonte:http://www.iag.usp.br/info_geral/hist.html.
  • 1896 - A preocupação de Derby com o meio ambiente. "Em São Paulo, a primeira área de preservação a ser criada foi o Horto Botânico (atual Horto Florestal), situado no sopé da Serra da Cantareira, na capital, por iniciativa de Orville Derby, Francisco de Paula Ramos de Azevedo e Albert Loefgren, em 1896."
  • Derby e a história do Brasil. "Orville Derby, estudioso de mapas antigos, assinala que no Atlas de Kurstman, datado de 1503, se encontravam duas referências: Rio São Vicente e Porto de São Vicente, depois da ilha de São Sebastião e antes de Cananeia, na mesma latitude de São Vicente atual."
  • A geologia de Derby na obra de Euclydes da Cunha. Em 13 de julho de 1899, Derby visita Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo (SP). "Vindo da capital de São Paulo, esteve nesta cidade em dias da semana passada de visita ao Dr. Euclides da Cunha, o notável homem de ciências Dr. Orville Derby, chefe da Comissão Geográfica e Geológica do Estado."

Fontes

DINIZ GONSALVES, A. - Orville A. Derby's Studies on the Paleontology of Brazil. Rio de Janeiro, 1952.
TOSATTO, Pierluigi. Orville A. Derby "O Pai da Geologia do Brasil" - DNPM - Museu de Ciências da Terra; CPRM - Serviço Geológico do Brasil, 2001.
http://www.fgel.uerj.br/

Serviço Geológico do Brasil - CPRM

Comentários   

Iran F. Machado
#1 Iran F. Machado 27-02-2016 19:48
Transcrevo, aqui, alguns trechos de um trabalho elaborado sobre o insigne pesquisador - ORVILLE ADELBERT
DERBY: NOTAS PARA O ESTUDO DE
SUA ATUAÇÃO CIENTÍFICO- INTELECTUAL
EM SÃO PAULO, de autoria de Marcelo
Lapuente Mahl:
"Em 1907, Derby volta ao Rio de Janeiro para reorganizar o Serviço
Geológico e Mineralógico do Brasil.
........................
Foi em meio a tantas dificuldades que ocorreu o suicídio de Orville
Adelbert Derby em um quarto de hotel na cidade do Rio de Janeiro, em 1915,
alguns meses depois de se naturalizar brasileiro. Após mais de quarenta
anos dedicados à ciência nacional, morreu mais brasileiro que norte-americano um dos filhos diletos da Universidade de Cornell."
Citar

Comente este artigo


Código de segurança
Atualizar