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petrobras bm s 8 carcara mapa

 

Recentemente dei uma entrevista a uma revista estrangeira, sobre a venda do bloco BM-S-8 (Carcará) pela Petrobras para a Statoil [1]. Queria compartilhar alguns desses comentários...

Considero o assunto de grande importância para a Petrobras e para o desenvolvimento petrolífero do Brasil. Infelizmente, tive que expressar minha desilusão com essa demonstração de uma tática de desinvestimento que considero muito equivocada, por parte da Petrobras. Já disse em outras ocasiões que acredito que as melhores opções de desinvestimento para a Petrobras seriam os grandes campos do pós-sal da Bacia de Campos, como Roncador e Marlim, que apresentam forte declínio de produção e exigem grandes investimentos para reverter ou diminuir essa queda de produção.

Justamente porque ainda são grandes produtores (juntos representam mais de 800 mil barris de óleo por dia), também valem muito, e a venda de até uma parcela menor desses campos poderia representar um reforço para o caixa da Petrobras muito superior ao que vai receber da Statoil pela venda do BM-S-8.

Porém, ainda mais importante para a estratégia da Petrobras de reduzir seus desembolsos financeiros, uma venda de parte ou de algum desses campos reduziria a necessidade de investimentos para manter sua produção. Atualmente, a ANP está fazendo vista grossa para a omissão da Petrobras ao não fazer esses investimentos, sem dúvida, porque sabe da impossibilidade da Petrobras de arcar com mais esse compromisso. Mas esses investimentos são do interesse do Brasil, pois elevariam a produção de petróleo e a receita da união, estados e municípios (royalties, participação especial, impostos, etc.). Passando para outra operadora, esses campos poderiam ser revitalizados através de investimentos em técnicas de recuperação avançada de óleo, e voltariam a contribuir muito mais para a economia brasileira. Essa poderia, inclusive, ser uma exigência da ANP para aprovar sua venda, o que traria benefícios para todas as partes. Não faltam interessados em adquirir áreas como essas, de grande produção, em um país de relativamente baixo risco operacional.

O que vemos, no entanto, é a venda de uma das mais interessantes áreas do pré-sal, cujos recursos recuperáveis podem ser muito maiores do que os campos de Marlim e Roncador ainda poderão produzir [2]. A Petrobras vendeu seu futuro por uma bagatela, pois se trata de uma área ainda em estágio exploratório inicial, cujo valor de negociação é naturalmente muito prejudicado pelas incertezas que ainda restam até que possa iniciar sua produção em grande escala.

Infelizmente, a Petrobras preferiu sacrificar o grande potencial de um ativo no pré-sal, ao invés de se livrar de um elevado compromisso de investimentos em uma área de produção declinante. Essa decisão não favorece nem os interesses da Petrobras, nem os do país. Representa uma decisão tomada por absoluta necessidade, justamente na pior das situações, quando a negociação dos valores foi prejudicada por vários fatores: a crise do petróleo, com seus baixos preços, que reduzem o valor presente da possível produção futura; a crise política e econômica do Brasil, muito pior que em outros países produtores, que reduz a atratividade e o valor de ativos no Brasil; e a situação de barganha prejudicada da Petrobras, afinal ninguém consegue vender por um bom preço quando está com a corda no pescoço, como é o caso da Petrobras.

Ironicamente, se a Petrobras tivesse seguido as recomendações que eu e outros analistas fizeram, desde 2014 [3], de vender ativos com produção declinante, como Marlim e Roncador, ela poderia ter realizado um valor de venda muito maior, já que o país ainda não estava tão mergulhado na atual crise política e econômica. Por outro lado, à medida que a duração do ciclo de preços baixos se estendeu, como também previ [4], as estimativas de uma possível recuperação do preço do petróleo no longo prazo também se esvaíram, diminuindo o valor de ativos que dependem da produção futura. Mesmo o valor do bloco BM-S-8 teria sido muito mais elevado se a venda tivesse sido concretizada há um ano, quando esse efeito ainda não era tão forte, os investidores estavam mais dispostos a realizar avaliações com preços de longo prazo mais elevados, e quando a Petrobras ainda tinha um melhor poder de negociação, sem estar tão pressionada.

A venda do bloco BM-S-8 mostra que a Petrobras perdeu o rumo na definição de seu perfil e de seu modelo de negócio, como empresa de petróleo. Não há futuro para as operações da Petrobras com produção em forte declínio. Ela tem demonstrado que não consegue atingir sequer as modestas metas de produção estabelecidas nos últimos anos.

Seu futuro e sua atração para os investidores está nos seus inúmeros ativos de grande potencial, como os do pré-sal e de outras fronteiras exploratórias promissoras. E nestes, a Petrobras tem demonstrado que sabe como descobrir, delinear, desenvolver e colocar em produção com grande sucesso, haja vista a atual produção do pré-sal, acima de um milhão de barris por dia, a partir de pouquíssimos poços produtores, ou seja, com altíssima produtividade, em muitos casos acima de 30, 40 mil, ou mais, barris por dia.

Esta sim é uma indicação da vocação da Petrobras, e deveria nortear suas decisões estratégicas. Sua estratégia deveria reforçar o perfil da empresa como uma companhia focada em grandes objetivos exploratórios, descobrindo e desenvolvendo os “elefantes” da indústria petrolífera, como Lula, Carcará e outros ativos do pré-sal, e não se apegando a campos com potencial limitado e produção já em declínio.

Pelo lado positivo, a venda do bloco BM-S-8 mostra que, independentemente da situação da empresa ou do país, não há escassez de players interessados em adquirir bons ativos exploratórios. A Statoil certamente vai liderar o consórcio e apresentar resultados excepcionais, semelhantes aos que a Petrobras poderia ter alcançado. O farm-in por um grande player da indústria petrolífera mundial também deve melhorar as chances de o Brasil desenvolver seus recursos petrolíferos do pré-sal em um ritmo mais acelerado, pois deve desvincular esse ritmo da capacidade de investimentos da Petrobras em grandes novos projetos, que no momento é quase nula.

Grandes e novas apostas na indústria do petróleo no Brasil, por parte de investidores estrangeiros, também ajudam a reverter a mentalidade negativa que o próprio governo brasileiro semeou, ao relutar em dar início a novos leilões de áreas exploratórias, por medo de fracassarem por falta de interesse. Esse temor se tornou uma profecia que se auto realizou - temos que combater esse pessimismo injustificável.

Entretanto, sugiro um foco nos aspectos positivos da entrada no pré-sal de uma empresa respeitada, com experiência no Brasil, e não na enorme perda representada por uma negociação muito desfavorável à Petrobras e ao Brasil. Ainda assim, não há como escapar que na venda do bloco BM-S-8 a Petrobras fez um péssimo negócio. Mas foi o que a Petrobras pode conseguir, na presente situação, portanto foi justo.

[1] PETROBRAS. Negócio de US$ 2,5 bi com Statoil reafirma nossa meta de parceria e desinvestimento. Fatos e Dados, 29 jul 2016. 

[2] JONES, C.M.; CHAVES, H.A.F. 2015. Re-Assessment of yet-to-find oil in the Pre-Salt province of Brazil. Presentation. In: 14th International Congress of the Brazilian Geophysical Society, Rio de Janeiro, Aug. 2015.

[3] JONES, C.M. Comentários citados na Revista Monitor Global Outlook. 12 nov.2014.

[4] DOURADO, J.D.A.; JONES, C.M. 2015. New oil market paradigm – the Brazilian perspective. T&B Petroleum Magazine, v. XVI, n. 37, May 2015, p. 54-60. Disponível emhttp://tbpetroleum.com.br/magazines/.

Oilpro.com

Comentários   

luciano seixas chaga
#3 luciano seixas chaga 11-08-2016 10:24
Solução- Acho que urge o Governo capitalizar a sua empresa, via uso das excessivas reservas cambiais que dispomos, que tirando fora o valor necessário para os hedges de toda ordem, sobrariam grana em excesso para acudir a empresa, endividada pela ação do próprio governo. Enquanto isso pagamos juros extorsivos de 14,25% para os especuladores que abundam nosso mercado com dólares, pois somos um dos poucos países a pagar mais de 5% a/a reais (14,25 - 9% - inflação) num mundo com rendimentos negativos, que fazem o preço do dólar desabar mundo a fora. Vamos assumir a bandeira de capitalização minha gente, já até defendida por Armínio Fraga, um dos assessor/colaborador do governo.
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luciano seixas chaga
#2 luciano seixas chaga 11-08-2016 10:23
Como já manifesto pela FEBRAGEO, também estou de pleno acordo com o autor. O País e a Petrobrás perderam completamento o rumo, quer sejam por razões, estratégicas, econômicas e negociais, todas péssimas para empresa, que se tornou uma companhia financeira ao invés de uma petroleira, abandonando de vez razão pela qual foi criada.
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roberto breves vianna
#1 roberto breves vianna 10-08-2016 17:54
O que me parece é que houve subdimensionamento das reservas quando da venda.Lembro que quando foi licitada a área de Libra, onde havia apenas UM poço e mapeamento sísmico, a ANP calculou uma reserva de 16 bilhões de barris.Houve até quem mencionasse 32 bilhões, o que me parece exagero.Uma auditoria externa deveria ser contratada para avaliar as reservas provadas, provaveis e possiveis.
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