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Alberto Veloso

A possível explosão ocorrida no submarino San Juan da Armada da Argentina, detectada por sensores subaquáticos  situados a milhares de quilômetros do ponto de impacto, foi o único dado real e consistente para limitar a área de procura pela embarcação desaparecida.

Passadas mais de duas semanas do acidente na costa argentina e apesar de todo o esforço multinacional nesta procura – incluindo a colaboração brasileira - o submarino não foi encontrado e tampouco seus tripulantes resgatados. O submarino pode ter “deslizado” para profundidades abissais o que dificultará encontrar o que dele restou.

Pretende-se aqui ressaltar a existência de uma rede mundial com cerca de três centenas de estações, onde duas delas registraram a citada explosão submarina.  Denominado Sistema Internacional de Monitoramento e dirigido pelo CTBTO (Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty Organization), sediado em Viena, esta rede funciona initerruptamente utilizando quatro distintas tecnologias que se completam para vigiar o globo e o espaço ao seu redor, primariamente para registrar explosões nucleares. A tecnologia sísmica monitora as massas continentais, a de infrasom a atmosfera, a hidroacústica os oceanos e a de radionuclídeos detecta traços de isótopos radioativos de eventuais explosões. Tudo nasceu da necessidade de se cumprir o Tratado para Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT sigla em inglês), que foi discutido por cerca de quatro décadas antes de ser firmado por quase todos os países, mas ainda não ratificado por nações como os Estados Unidos.

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FIGURA 1: O cruzamento dos dois traços azuis contínuos no sul do Atlântico aponta a explosão nas proximidades da costa da Argentina. Eles também simbolizam as trajetórias dos sinais acústicos rumo as estações de Ascensão, ao norte e a estação de Cruzet, no oceano Indico.  No centro da figura aparecem os registros da estação de Ascenção interpretado como uma anomalia hidroacústica curta, violenta, mas não indicativa de evento nuclear. Fonte: CTBTO

 

Desde o início de sua montagem em 1998 a rede registrou explosões nucleares no Paquistão, na Índia e na Coréia do Norte. Quase nada importante lhe passa despercebido o que torna impossível aos norte-coreanos realizar explosões nucleares clandestinas, por exemplo. Assim, o sistema pode localizar terremotos, registrar explosões vulcânicas e de meteoros na atmosfera, a quebra da barreira do som por aeronaves, ou ruídos provocados por animais marinhos. Excepcionalmente ela “percebe” fatos extraordinários como a explosão no submarino registrada por estações hidroacústicas presentes nas ilhas Ascensão (Atlântico) e Crozet (Indico), a 6 e 8 mil km da fonte. O Brasil integra a rede do CTBTO abrigando uma estação sísmica e outra de infrassom em Brasília e duas de radionuclídeos em Recife e Rio de Janeiro.

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FIGURA 2:  Posição dos hidrofones N1, N2 e N3 da estação (H10) na ilha de Ascensão

 

Quanto a monitoramento próprio o Brasil também possui um sistema moderno e poderoso operando em tempo real via satélite. Trata-se da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) constituída por 80 estações distribuídas pelo Brasil. Criada com fundos da Petrobrás para investimentos em pesquisa ela é manejada por cientistas das universidades de São Paulo, Brasília, Rio Grande do Norte e Observatório Nacional, que analisam e utilizam os seus dados. Os recursos para sua  contínua e eficaz operação vem do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), que também edita boletins e divulga informações afins.

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FIGURA 3: Configuração da Rede Sismográfica do Brasil (RSBR), em agosto de 2016. As cores das estações indicam as entidades responsáveis pelas instalações e manutenções dos instrumentos. Fonte: SIS-UnB

 

Com a implantação da RSBR ampliou-se significativamente a capacidade de detecção sísmica e tremores de terra tão pequenos, como magnitudes 3, podem ser localizados em qualquer parte do Brasil. Mesmo um evento incomum, como a detonação de um caminhão transportando material explosivo no interior do Paraná, em outubro de 2016, foi registrado por estações próximas. Os dados abrangentes e de qualidade gerados pela RSBR estão possibilitando avanços notáveis no conhecimento científico como “ver” o interior da crosta terrestre brasileira com precisão até então não observada. 

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FIGURA 4: Explosão de dinamite no Paraná, em 8/10/2016, registrada por três estações da Rede Sismográfica do Brasil (RSBR). Fonte: IAG-USP

 

Os temas abordados mostram ações positivas da ciência, da tecnologia e da diplomacia em benefício da sociedade.

Alberto Veloso é professor aposentado da UnB e  foi o primeiro chefe da seção de Infrasom do CTBTO, em Viena, Áustria