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Há 30 anos atuando na área da Geociências, o engenheiro químico e geofísico Eder Cassola Molina passará a dividir seu tempo entre os cursos de graduação e pós-graduação do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP), onde é professor, e a vice-presidência da Sociedade Brasileira de Geofísica (SBGf) para o período 2017/2019.

Com mestrado, doutorado e livre-docência em Geofísica pelo IAG-USP, Molina terá como um de seus maiores desafios dar prosseguimento às atividades acadêmicas e pesquisas e, ao mesmo tempo, contribuir para o desenvolvimento técnico e profissional da geofísica.

“O maior desafio da Geofísica é ser reconhecida como profissão, carreira e pelo aporte que ela pode dar para as outras áreas para aprimorar o conhecimento sobre a Terra”, afirma o professor. Um desafio que há quase 40 anos a SBGf enfrenta e vem conseguindo consolidar grandes avanços.

Segue a entrevista exclusiva concedida ao Portal Geofísica Brasil: 

iag usp eder molina

A Geofísica ainda é uma área pouco conhecida pelo público leigo. No entanto é uma ciência essencial para alguns das principais atividades econômicas do planeta, como a exploração e produção de bens minerais e hidrocarbonetos. Qual sua percepção, como professor de graduação e de pós-graduação: essas indústrias são as que mais alavancam o interesse na área, assim como nas pesquisas?

Eder Molina - Estas áreas são as mais divulgadas e, provavelmente, as que mais demandam a atuação da Geofisica, do ponto de vista comercial. Mas diversas outras atividades se utilizam (e podem se utilizar mais ainda) da Geofísica, como a Engenharia Civil e a Engenharia Ambiental, por exemplo. Aos poucos a Geofísica está se consolidando como uma ciência importante em diversas áreas. A tendência é que, com um melhor conhecimento dela, diversas outras áreas encontrem aplicações que demandem ferramentas geofísicas.

Que outros fatores também contribuem para estimular o interesse nessa área: a maior ocorrência de acidentes naturais no país, como tremores, além de outros eventos que vem correndo devido às mudanças climáticas e outras consequências da ação humana?

Acredito que o estímulo ao interesse deve ser proveniente do melhor conhecimento desta ciência. Diversos fenômenos que ocorrem naturalmente podem ter uma boa contribuição da Geofísica em sua investigação. E é apenas questão de tempo para que muitas áreas a utilizem para aprimorar a solução dos problemas.

Quais as áreas de maior relevância na atuação da geofísica no país? Que eventos ou empreendimentos humanos demandam mais e mais a ação dos geofísicos?

Além das tradicionais indústrias de óleo e gás, e da mineração, as aplicações em engenharia civil e ambiental me parecem ter um grande potencial para utilizar ferramentas geofísicas, que oferecem muitos subsídios importantes para o conhecimento do subsolo. Um melhor conhecimento da área com certeza abrirá novos horizontes nestas áreas.

Quais os principais empreendimentos que demandam, cada vez mais, estudos geofísicos, utilizando as diferentes ferramentas das geociências?

Grandes barragens e obras de engenharia estão entre os empreendimentos que mais demandam estudos geofísicos para conseguirem bons resultados, mas isso não exclui pequenos empreendimentos de engenharia civil, por exemplo, ou investigações ambientais locais. A Geofísica possui excelentes ferramentas para colaborar com o conhecimento do ambiente nestes contextos.

Na época dos projetos das grandes hidrelétricas, eram feitos havia estudos geofísicos mais aprofundados antes da implantação de projetos ou na realidade a falta de estudos é que resultou em algumas tragédias ambientais, como a Hidrelétrica de Balbina e de Tucuruí?

Não sei dizer o quanto das tragédias ambientais é fruto da falta de uso de métodos geofísicos, mas se em locais como estes for feito um bom estudo que inclua os métodos geofísicos, com certeza o risco vai diminuir significativamente, pela quantidade de conhecimento que se pode obter da subsuperfície.

E projetos como o da transposição do Rio São Francisco: qual o papel que a geofísica tem em empreendimentos como esse que tem forte impacto social e ambiental?

O conhecimento das características do subsolo em empreendimentos como estes é fundamental para um planejamento adequado e uma boa implementação da obra. A Geofísica tem muito a agregar em obras deste porte.

Quando se fala em extrativismo mineral sempre se questiona o impacto ambiental. Como a Geofísica pode contribuir para minimizar incidentes, na maior parte das vezes, causados por tomadas erradas de decisões e não devido a falhas nos estudos?

O bom conhecimento das características locais e regionais que a Geofísica proporciona certamente é uma poderosa ferramenta para o planejamento adequado e a eventual mitigação de problemas que podem ocorrer em obras desse tipo. Os métodos geofísicos podem auxiliar no conhecimento da região antes, durante e após as atividades de extração.

De que forma a geofísica pode contribuir para a preservação e gestão do maior aquífero Guarani, o maior reservatório de água doce do planeta?

Pelo conhecimento! Conhecendo bem o recurso, existe uma maior probabilidade de se gerenciar melhor a sua exploração. A Geofísica pode utilizar diversos métodos para mapear estruturas deste tipo e acompanhar sua evolução ao longo do tempo, de forma a auxiliar nas decisões relacionadas a elas.

Dentro do ambiente urbano, quais as principais aplicações hoje da geofísica que podem contribuir para o crescimento sustentável ou mais ordenado das cidades?

Por meio do conhecimento da estrutura em subsuperfície, seja o acompanhamento de dutos subterrâneos, da presença de estruturas geológicas desejáveis ou não para a construção de uma obra, a Geofísica pode auxiliar no crescimento ordenado das cidades. Métodos elétricos e eletromagnéticos são classicamente os mais empregados nos estudos deste tipo, mas uma gama de métodos sísmicos está despontando como uma boa ferramenta para investigação urbana.

Quais as atividades em que a geofísica é utilizada sem que haja uma percepção ou conhecimento disso por parte da sociedade em geral?

A sociedade em geral desconhece a Geofísica de maneira quase completa. Quando se fala em busca de hidrocarbonetos, por exemplo, normalmente associa-se a atividade exclusivamente a geólogos. Investigações para a construção de obras de grande porte de engenharia civil, como o monitoramento de sismicidade em grandes barragens, por exemplo, normalmente são desconhecidas do público. Mesmo as atividades que claramente envolvem geofísicos, como a busca de destroços de aviões por métodos magnéticos ou o mapeamento de locais de sepultamento de múmias, ocorridos num passado recente, não tinham o geofísico reconhecido como o planejador e executor. Lembra-se do clássico Jurassic Park, de 1993, quando a equipe de paleontólogos (que tinha um geofísico no time) estava buscando mapear um esqueleto de dinossauro no início do filme? Eles estavam usando métodos sísmicos, mas pouca gente deve ter atribuído aquele mapeamento a um profissional da Geofísica...

Pesquisadores do IAG-USP, em colaboração com colegas das Unesp, UFRN, UnB, do ON e da FGV, do Rio de Janeiro, estão elaborando um novo mapa de ameaça sísmica do Brasil. Quais as razões que levaram os pesquisadores a elaborar esse novo mapa? O que ele poderá revelar de mais interessante nos próximos anos?

O mapa de ameaça sísmica brasileiro estava desatualizado, principalmente pela falta de uma boa cobertura sismológica no território nacional, e baseava-se em dados globais antigos levantados pelo Serviço Geológico americano. Com o grande desenvolvimento da área no país nos últimos anos, e a implantação da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), as pesquisas tiveram um enorme impulso, permitindo que as diversas excelentes instituições nacionais realizassem estudos que mostraram um novo país do ponto de vista sismológico. No futuro, com a continuidade e melhoria desta rede, poder-se-á conhecer muito melhor as características de nosso território sob este prisma, e elaborar uma Norma de Construção Antissísmica muito mais adequada para o país.

Você assume a vice-presidência da Sociedade Brasileira de Geofísica (SBGf) no próximo congresso, que se realiza no Rio de Janeiro entre os dias 30 de julho a 3 de agosto. Na sua visão, como geofísico, professor e agente atuante no setor, quais os maiores desafios hoje da geofísica no Brasil?

Acredito que o maior desafio da geofísica no Brasil hoje em dia é ser reconhecida: ser reconhecida como profissão (estamos lutando por isso há muito tempo), ser reconhecida como a excelente carreira que é, e ser reconhecida pelas diversas áreas que podem com ela trabalhar em conjunto, utilizando seus métodos para aprimorar o conhecimento da Terra.

Geofísica Brasil

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